O conflito de interesses entre profissionais e dirigentes que “estão no sector público e ao mesmo tempo estão com uma perna no sector privado” constitui “o problema mais grave do sistema de saúde português”. A opinião é do antigo ministro da saúde, António Correia de Campos, que, esta tarde, no parlamento regional, deu uma conferência sobre o financiamento do serviço público de saúde. A iniciativa foi organizada pela Associação dos Ex-Deputados na Assembleia Legislativa da Madeira (AEDAL-RAM).

“Nunca se pode ser servidor dois amos. Se se serve o público já não se pode servir o privado. Quando se serve o privado bem está-se a prejudicar o público, de certeza”, declarou o professor universitário que actualmente preside ao Conselho Económico e Social, que explicou que muitos profissionais ganham numa semana no privado o valor de um salário mensal no sector público.

Qualidade é superior no público

Para Correia de Campos, há que definir regras claras e separar águas: “É preciso dizer que quem trabalha no sector público deve trabalhar só no sector público. Quem dirige um hospital ou um serviço num sector público não pode trabalhar no sector privado”. Apesar de tudo, o antigo ministro constata que houve uma evolução positiva, pois já muitos profissionais fizeram uma opção pela dedicação em exclusivo a um dos sectores. “Há 20 anos atrás toda a gente tinha um arranjinho, estava no público e no privado”, adiantou.

Outro problema apontado pelo conferencista foi o desequilíbrio da relação entre serviços prestados e gastos. Em termos de serviços prestados cerca de 70% são públicos e 30% são privados mas em termos de pagamentos 57% são públicos e 43% são privados. “O Serviço Nacional de Saúde paga os tais 57% mas presta cerca de 70%. Esta é uma combinação muito difícil de manter”, afirmou Correia de Campos, que defende que “a qualidade é indiscutivelmente superior no sector público do que no sector privado”.

O antigo ministro concluiu que “há espaço para todos” na área da saúde e que “o que não pode haver é o sector público a deixar-se morder pelo sector privado, formando pessoas à custa do Estado que depois vão para o sector privado na força da sua vida, aos 40 anos”.

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